Cultura e sustentabilidade estão intrinsecamente ligadas, a cultura molda como valorizamos e interagimos com a natureza, enquanto a sustentabilidade fortalece a identidade cultural ao garantir a preservação de tradições, saberes e diversidade para as futuras gerações, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento que equilibra o ambiental, o social, o econômico e o cultural, com foco na equidade e no bem-estar coletivo
O que é a cultura
A cultura é um processo acumulativo. O homem recebe conhecimentos e experiências acumulados ao longo das gerações que o antecederam e, se estas informações forem adequadas e criativamente manipuladas, permitirão inovações e invenções. Assim, estas não são o resultado da ação isolada de um gênio, mas o esforço de toda uma comunidade
Desde a Antiguidade, tem-se tentado explicar as diferenças de comportamento entre os homens, a partir das diversidades genéticas ou geográficas. As características biológicas não são determinantes das diferenças culturais: por exemplo, se uma criança brasileira for criada na França, ela crescerá como uma francesa, aprendendo a língua, os hábitos, crenças e valores dos franceses. Podemos citar, ainda, o fato de que muitas atividades que são atribuídas às mulheres numa cultura são responsabilidade dos homens em outra.
O ambiente físico não explica a diversidade cultural.
Vamos ver dois seres diferentes os lapões e os esquimós eles vivem em ambientes muito semelhantes – os lapões habitam o norte da Europa e os esquimós o norte da América. Lapões (agora chamados Sámis) e Esquimós (ou Inuit/Yupik) são povos indígenas do Ártico, mas vivem em regiões diferentes e têm culturas distintas: os Lapões/Sámis estão na Escandinávia/Rússia (Lapônia), focados no pastoreio de renas e pesca; os Esquimós/Inuit vivem na Groenlândia, Canadá e Alasca, dependendo mais da caça de focas, baleias e peixes, sendo nômades ou seminômades em áreas costeiras. A principal diferença está na cultura, língua e localização, embora ambos sejam mestres na adaptação ao frio ártico. Era de se esperar que eles tivessem comportamentos semelhantes, mas seus estilos de vida são bem diferentes.
Os esquimós constroem os iglus amontoando blocos de gelo num formato de colmeias e forram a casa por dentro com peles de animais. Com a ajuda do fogo, eles conseguem manter o interior da casa aquecido. Quando quer se mudar, o esquimó abandona a casa levando apenas suas coisas e constrói um novo iglu.
Os lapões vivem em tendas de peles de rena. Quando desejam se mudar, eles desmontam o acampamento, secam as peles e transportam tudo para o novo local.
Os lapões criam renas, enquanto os esquimós apenas caçam renas.
Um esquimó que deseje morar num país tropical, adapta-se rapidamente, ele substitui seu iglu e seus grossos casacos por um apartamento refrigerado e roupas leves – enquanto o urso polar não pode adaptar-se fora de seu ambiente.
Outro exemplo são as tribos de índios que habitam uma mesma área florestal e têm modos de vida bem diferentes: algumas são amigáveis, enquanto outras são ferozes; algumas alimentam-se de vegetais e sementes, outras caçam, têm rituais diferentes etc.
A socialização cultural
O comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo chamado socialização que é o processo pelo qual indivíduos aprendem e internalizam os valores, normas, crenças e comportamentos de sua sociedade, tornando-se membros funcionais e desenvolvendo sua personalidade através da interação com agentes como família, escola, amigos e mídia, garantindo a perpetuação da própria cultura. É um processo contínuo, adaptando-se às mudanças sociais e tecnológicas, onde cultura (costumes, conhecimentos, artefatos) e socialização (aprendizagem e transmissão) são indissociáveis para a manutenção e evolução da vida em sociedade.
DANOS DA FALTA DE SOCIALIZAÇÃO CULTURAL
A falta de socialização na cultura resulta em impactos negativos na saúde mental (depressão, ansiedade), enfraquecimento da identidade coletiva, aumento da desigualdade (barreiras de acesso à cultura) e dificuldade na formação de vínculos sociais, levando ao isolamento e à perda do senso de pertencimento, sendo a arte e a cultura ferramentas cruciais para a reconexão humana e o desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas, especialmente em contextos de exclusão.
Pessoas de raças ou sexos diferentes têm comportamentos diferentes não em função de transmissão genética ou do ambiente em que vivem, mas por terem recebido uma educação diferenciada.
Assim, podemos concluir que é a cultura que determina a diferença de comportamento entre os homens. O homem age de acordo com os seus padrões culturais, ele é resultado do meio em que foi socializado.
Para Edward Tylor, 1871, Cultura é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade.
Tylor foi o primeiro a formular o conceito de cultura do ponto de vista antropológico da forma como é utilizado atualmente. Na verdade, ele formalizou uma ideia que vinha crescendo desde o iluminismo.
John Locke, em 1690, afirmou que a mente humana era uma caixa vazia no nascimento, dotada de capacidade ilimitada de obter conhecimento, através do que hoje chamamos de endoculturação que é o processo contínuo e vitalício de aprendizagem e assimilação dos valores, normas, crenças, conhecimentos e comportamentos de uma cultura específica, começando desde o nascimento e moldando a identidade cultural do indivíduo, ocorrendo através da família, escola e sociedade, e sendo fundamental para a integração do indivíduo na sua sociedade. É a internalização do "modo de vida" de um povo, ensinando como agir, pensar e sentir dentro de um contexto cultural.
O homem é um ser predominantemente cultural. Graças à cultura, ele superou suas limitações orgânicas.
O homem conseguiu sobreviver através dos tempos com um equipamento biológico relativamente simples.
A cultura é o meio de adaptação do homem aos diferentes ambientes. Ao invés de adaptar o seu equipamento biológico, como os animais, o homem utiliza equipamentos extra orgânicos. Por exemplo, a baleia perdeu os membros e os pêlos e adquiriu nadadeiras para se adaptar ao ambiente marítimo. Enquanto a baleia teve que transformar-se ela mesma num barco, o homem utiliza um equipamento exterior ao corpo para navegar.
A cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo - pessoas de culturas diferentes usam lentes diferentes e, portanto, têm visões distintas das coisas.
O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural (isso é denominado etnocentrismo), depreciando o comportamento daqueles que agem fora dos padrões de sua comunidade – discriminando o comportamento desviante.
OS COMPORTAMENTOS ETNOCÊNTRICOS
Comportamentos etnocêntricos são atitudes ou pensamentos que julgam outras culturas usando os próprios valores e padrões culturais como referência e critério de superioridade, vendo-os como "corretos" e os demais como inferiores, estranhos ou incompletos, levando a preconceito, discriminação e dificuldade em aceitar a diversidade. Isso se manifesta ao avaliar culinária, vestimenta, idiomas ou costumes alheios com base na sua própria norma, negando a validade de outras formas de viver e criando uma hierarquia cultural.
Comportamentos etnocêntricos resultam em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes, práticas de outros sistemas culturais são vistas como absurdas.
O etnocentrismo julga os outros povos e culturas pelos padrões da própria sociedade, que servem para aferir até que ponto são corretos e humanos os costumes alheios. Desse modo, a identificação de um indivíduo com sua sociedade induz à rejeição das outras, o etnocentrismo é um comportamento universal.
Em lugar da superestima dos valores de sua própria sociedade, num momento de crise os indivíduos abandonam a crença naquela cultura e perdem a motivação que os mantém unidos.
Por exemplo, os africanos, quando foram trazidos como escravos para uma terra estranha, com costumes e línguas diferentes, perdiam a motivação de continuar vivos e muitos praticavam suicídio.
Embora nenhum indivíduo conheça totalmente o seu sistema cultural, é necessário que o indivíduo tenha um mínimo de conhecimento da sua cultura para conviver com os outros membros da sociedade. Nenhum indivíduo é perfeitamente socializado.
Enquanto o etnocentrismo julga pelo próprio prisma, o relativismo cultural busca entender cada cultura em seus próprios termos, sem julgamentos externos, promovendo a compreensão e o respeito.
São estes espaços que permitem a mudança. Qualquer sistema cultural está num contínuo processo de mudança. Existem dois tipos de mudança cultural:
A interna (ou endógena), que resulta a dinâmica do próprio sistema cultural. Esta mudança é lenta; porém, o ritmo pode ser alterado por eventos históricos, como catástrofe ou uma grande inovação tecnológica.
A mudança externa(exógena) que é resultado do contato de um sistema cultural com outro. Esta mudança é mais rápida e brusca. O tempo é um elemento importante na análise de uma cultura. Assim, da mesma forma que é importante para a humanidade à compreensão das diferenças entre os povos de culturas diferentes, é necessário entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema.


