Publicado em outubro de 1987
pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, o Relatório
Brundtland, formalmente intitulado "Nosso Futuro Comum" (Our Common
Future), representou um divisor de águas no debate político e socioambiental
global.
Coordenado pela ex-primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland,
o documento surgiu em um cenário de crescentes tensões geopolíticas e desastres
ecológicos evidentes, com a missão de conciliar o crescimento industrial e
econômico à preservação dos recursos naturais do planeta.O grande mérito
histórico do relatório foi a conceituação e a popularização do termo
desenvolvimento sustentável, definido como aquele que "atende às
necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de
atenderem às suas próprias necessidades".
Ao cunhar essa premissa, o
documento quebrou o antigo paradigma de que a proteção ao meio ambiente e o
progresso econômico seriam forças excludentes. Em vez disso, propôs um modelo
de governança global baseado na interdependência entre a preservação ecológica,
a equidade social e a eficiência econômica.
Mais do que um diagnóstico alarmante
sobre a degradação ambiental — abordando precocemente temas como o aquecimento
global e a perda de biodiversidade —, o "Nosso Futuro Comum"
consolidou-se como um manifesto político-filosófico. Ele redirecionou o foco da
comunidade internacional para a erradicação da pobreza e a cooperação entre as
nações do Norte e do Sul global. Compreender as bases, as propostas e o impacto
do Relatório Brundtland é indispensável para analisar a evolução das políticas
públicas contemporâneas e a própria fundamentação da Agenda 2030 e dos atuais
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
ANALIZANDO AS DEFINIÇÕES E PRINCÍPIOS
Definição e princípios
No início da década de 1980, a ONU retomou o debate das questões ambientais.
Indicada pela entidade, a primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland,
chefiou a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, para estudar
o assunto.
A comissão foi criada em 1983, após uma avaliação dos 10 anos da
Conferência de Estocolmo, com o objetivo de promover audiências em todo o mundo e
produzir um resultado formal das discussões. O documento final desses estudos
chamou-se Nosso Futuro Comum ou Relatório Brundtland.
Apresentado em 1987,
propõe o desenvolvimento sustentável, que é “aquele que atende às necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas
necessidades”.
O documento foi publicado após três anos de audiências com líderes de governo e o
público em geral, ouvidos em todo o mundo sobre questões relacionadas ao meio
ambiente e ao desenvolvimento.
Foram realizadas reuniões públicas tanto em regiões
desenvolvidas quanto nas em desenvolvimento, e o processo possibilitou que
diferentes grupos expressassem seus pontos de vista em questões como agricultura,
silvicultura, água, energia, transferência de tecnologias e desenvolvimento sustentável
em geral.
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| RELATÓRIO BRUNDTLAND “NOSSO FUTURO COMUM” |
O Relatório Brundtland,faz parte de uma série de iniciativas, anteriores à Agenda 21, as
quais reafirmam uma visão crítica do modelo de desenvolvimento adotado pelos países
industrializados e reproduzido pelas nações em desenvolvimento, e que ressaltam os
riscos do uso excessivo dos recursos naturais sem considerar a capacidade de suporte
dos ecossistemas.
O Relatório aponta para a incompatibilidade entre desenvolvimento sustentável e os
padrões de produção e consumo, trazendo à tona mais uma vez a necessidade de uma
nova relação “ser humano-meio ambiente”.
Ao mesmo tempo, esse modelo não
sugere a estagnação do crescimento econômico, mas sim essa conciliação com as
questões ambientais e sociais.
O documento enfatizou problemas ambientais, como o aquecimento global e a
destruição da camada de ozônio (conceitos novos para a época), e expressou
preocupação em relação ao fato de a velocidade das mudanças estar excedendo a
capacidade das disciplinas científicas e de nossas habilidades de avaliar e propor
soluções, como está na publicação Perspectivas do Meio Ambiente Mundial – GEO 3,
do PNUMA.
O Relatório Brundtlandt também já apresentava uma lista de ações a serem tomadas
pelos Estados e também definia metas a serem realizadas no nível internacional, tendo
como agentes as diversas instituições multilaterais.
Entre as medidas apontadas pelo relatório, constam soluções, como a diminuição do
consumo de energia, o desenvolvimento de tecnologias para uso de fontes energéticas
renováveis e o aumento da produção industrial nos países não-industrializados com
base em tecnologias ecologicamente adaptadas.
Fica muito claro, nessa nova visão das relações homem-meio ambiente, que não existe
apenas um limite mínimo para o bem-estar da sociedade; há também um limite
máximo para a utilização dos recursos naturais, de modo que sejam preservados.
Segundo o Relatório, uma série de medidas devem ser tomadas pelos países para
promover o desenvolvimento sustentável.
Entre elas:
- limitação do crescimento populacional;
- garantia de recursos básicos (água, alimentos, energia) a longo prazo;
- preservação da biodiversidade e dos ecossistemas;
- diminuição do consumo de energia e desenvolvimento de tecnologias com uso
de fontes energéticas renováveis;
- aumento da produção industrial nos países não-industrializados com base em
tecnologias ecologicamente adaptadas;
- controle da urbanização desordenada e integração entre campo e cidades
menores;
- atendimento das necessidades básicas (saúde, escola, moradia).
Em âmbito internacional, as metas propostas são:
- adoção da estratégia de desenvolvimento sustentável pelas organizações de desenvolvimento (órgãos e instituições internacionais de financiamento);
- proteção dos ecossistemas supra-nacionais como a Antártica, oceanos, etc,
pela comunidade internacional;
• banimento das guerras;
- implantação de um programa de desenvolvimento sustentável pela
Organização das Nações Unidas (ONU).
Algumas outras medidas para a implantação de um programa minimamente adequado
de desenvolvimento sustentável são:
- uso de novos materiais na construção;
- reestruturação da distribuição de zonas residenciais e industriais;
- aproveitamento e consumo de fontes alternativas de energia, como a solar, a eólica e a geotérmica;
- reciclagem de materiais reaproveitáveis;
- consumo racional de água e de alimentos;
- redução do uso de produtos químicos prejudiciais à saúde na produção de
alimentos.
O atual modelo de crescimento econômico gerou enormes desequilíbrios; se, por um
lado, nunca houve tanta riqueza e fartura no mundo, por outro lado, a miséria, a
degradação ambiental e a poluição aumentam dia-a-dia. Diante desta constatação,
surge a idéia do Desenvolvimento Sustentável (DS), buscando conciliar o
desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e, ainda, ao fim da pobreza
no mundo.
O conceito foi definitivamente incorporado como um princípio, durante a
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Cúpula da
Terra de 1992 – Eco-92, no Rio de Janeiro.
O Desenvolvimento Sustentável busca o
equilíbrio entre proteção ambiental e desenvolvimento econômico e serviu como base
para a formulação da Agenda 21, com a qual mais de 170 países se comprometeram, por
ocasião da Conferência.
Trata-se de um abrangente conjunto de metas para a criação
de um mundo, enfim, equilibrado.
A Declaração de Política de 2002 da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento
Sustentável, realizada em Joanesburgo, afirma que o Desenvolvimento Sustentável é
construído sobre “três pilares interdependentes e mutuamente sustentadores” —
desenvolvimento econômico, desenvolvimento social e proteção ambiental. Esse
paradigma reconhece a complexidade e o inter-relacionamento de questões críticas
como pobreza, desperdício, degradação ambiental, decadência urbana, crescimento
populacional, igualdade de gêneros, saúde, conflito e violência aos direitos humanos.
O PII (Projeto de Implementação Internacional) apresenta quatro elementos
principais do Desenvolvimento Sustentável — sociedade, ambiente, economia e
cultura.
Podemos ir alem nos dias atuais e concluir que em suma, a análise das metas e
medidas propostas pelo Relatório Brundtland revela que o documento foi muito
além de um mero diagnóstico alarmante, estabelecendo um plano de ação prático e
pioneiro para a governança global.
Ao propor a transição para matrizes
energéticas renováveis, a reforma dos sistemas industriais, o controle do
crescimento demográfico pela via dos direitos humanos e a segurança alimentar
sustentável, o relatório fixou as bases técnicas e políticas sobre as quais a
comunidade internacional opera até os dias de hoje.Contudo, ao avaliar o
cumprimento dessas medidas quase quatro décadas após a sua publicação,
percebe-se um cenário de avanços parciais. Se por um lado o ecocentrismo e a
contabilidade ambiental foram institucionalizados — servindo de base direta
para as metas contemporâneas da Agenda 2030 e os 17 Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) —, por outro, a efetivação prática dessas
medidas ainda esbarra na resistência a mudanças estruturais nos modelos de
produção e consumo globais.
A persistência da crise climática e da desigualdade
socioeconômica demonstra que, embora o mapa do caminho tenha sido desenhado em
1987, a vontade política para alcançar suas metas em plenitude continua sendo o
maior desafio da humanidade.Portanto, as metas e diretrizes do "Nosso
Futuro Comum" permanecem urgentes e inacabadas. O sucesso em atingi-las
não deve ser visto como uma escolha de governos isolados, mas como a única
salvaguarda possível para garantir que as gerações futuras herdem um planeta economicamente
viável, socialmente justo e ecologicamente equilibrado.
Fonte de parte do texto:mudancasclimaticas
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